Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#15) Velhota, peixe, pasta

por Rita da Nova, em 02.02.16

dados-15.jpg

 

 

G:

“Olha o peeeeixe fresquinho! Fresco, fresquinho!!” Era assim que Isália gritava, todos os dias, no bolhão. Era assim que Isália ganhava a vida. Gritava que o peixe era fresco, vendia o peixe. Rute, a sua colega de banca, fez então a pergunta de sempre. “Vais querer jornal para enrolar o peixe, ou não?” mas sabia a resposta de cor. Era hoje, como era sempre, um "não". Isália esperava pelas 18h, pelo sr João, e aí sim, arranjava embrulho para o peixe.

Eram 17:59h quando ele chegou. “Sr João, robalinho?” disse Isália antes de ouvir um “Pois claro” do homem de casaco e pasta. “E tem aí uma das suas folhinhas, sr João?”. O homem abriu a pasta, tirou um livro dos dele, rasgou uma folha e deu-lha. Ela agradeceu. “A senhora é uma renda em livros, sabe? Porque não usa jornais como as suas colegas?” A mulher, embrulhando o peixe numa página de um livro, respondeu-lhe “Prefiro, sabe? É que o peixe, como as pessoas, fica mais saboroso com fantasia do que com realidade.” O homem sorriu e pagou o peixe.

 

∞∞∞

 

R:

Ela não fala há um mês, Dr., começa a não ser normal. 

Há um mês, diz? 

Certinho, fez ontem.  

Apanhou algum susto? 

Não, tenho estado sempre com ela. 

Algum desgosto, alguma morte? 

Também não. Ao início ainda achámos que fosse birra por causa da comida que damos aqui. Gosta de doces, mas temos de lhe dar comida de dieta por causa dos tratamentos. 

Que tipo de comida lhe dão? 

Mas isso interessa, Dr.? Só se lhe déssemos urtigas é que lhe rasgávamos as cordas vocais, ora essa.  

O médico abriu a pasta e tirou de lá de dentro aquela luzinha com que os médicos normalmente vêem os ouvidos e um pauzinho de gelado, mas sem a parte do gelado. Aproximou-se da velhota.  

Diga aaaaaaahhhhh. Ela abriu a boca, mas sem som.  

Tem de avisar na cozinha para terem mais cuidado, disse o médico à rapariga. O peixe é muito saudável, de facto, mas convém que seja sem espinhas. 

(#10) Velhota, gaiola, intrigado

por Guilherme Fonseca, em 23.01.16

dados-10.jpg

 

R:

A aldeia vivia com medo daquela velhota. Muito curvada, de expressão seca, vagueava pelas ruas estreitas sem nunca falar. Nem sorrir, nem olhar ninguém nos olhos. Corria o mito de que ela nem sequer os tinha, que ali havia duas pedras negras a tapar o buraco.
Felícia e Agostinho tiveram de a seguir um dia. Passavam os dias intrigados e, ao contrário do resto da aldeia, não tinham medo. Estavam apenas curiosos, como boas crianças que eram.
Discretos e aos cochichos, lá a seguiram até casa um dia, na esperança de resolver o mistério. Deixaram-na entrar, esperaram que tivesse tempo de se pôr à vontade, e ganharam coragem para espreitar pela janela.
Aquilo que viram pôs-lhes o coração a bater mais forte, quase tão forte como as asas dos pássaros que esvoaçavam naquela sala. E a velhota, numa festa de cor e penas, rodopiava com eles, ao som da música que eles chilreavam. Naquela casa não havia gaiolas; não era preciso. Os pássaros eram tão felizes com ela, que nunca quereriam fugir. E a velhota era tão feliz com eles, que não precisava de amigos humanos para nada.

 
∞∞∞
 
G:

As duas crianças estavam agachadas, no parapeito da janela, a olhar para a gaiola vazia.
Juro-te!” disse Henrique.
Isso é uma estupidez.” respondeu-lhe a Luisa. Todos os dias a mesma investigação, nunca chegavam a nenhuma conclusão. Hoje o Henrique tinha uma.
Ouve… de dia o pássaro desaparece, não é?
Sim.
E de noite, ele está lá… mas e a velha?
A velha desaparece.
Então! Se eles nunca estão no mesmo sítio ao mesmo tempo… ela é o pássaro!
Oh, isso é parvo. Como é que ela é o pássaro, mano?
É ela, juro-te! E depois durante o dia transforma-se para andar pela rua.
A refilar connosco”.
Riram-se os dois. Atrás dele, de repente, ouviu-se barulho de madeira a ranger. Viraram-se ambos, devagar. Era a velha, que os olhava de mãos nas ancas, e que depois de alguns segundos abriu a boca e só disse “piu”. O Henrique e a Luisa fugiram a correr. E juram que enquanto desciam as escadas, conseguiam ouvir a velhota a rir.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D