Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#35) Suspeitos, sirene, floresta

por Rita da Nova, em 20.04.16

dados-35.JPG

 

 

G:

São os pretos, não são? Eu sabia!

Aquela mulher começava a irritá-lo. Um trabalho é um trabalho, mas há uns que custam mais do que outros.

Vêm para cá e só fazem asneiras. Não é por mal, coitados. É cultural. Os pretos são poucochinho, sabe?

Queria levantar-se e dar um estalo na mulher mas não podia. Precisava do dinheiro do trabalho e ela além de racista era octogenária. Há coisas que mais vale deixar morrer, que resolver.

Andam para aqui e pisam-me as flores todas, sabe porquê? Porque lá na terra deles não há disto. É só areia e mais areia. Não podem ver nada que estragam tudo.

Pensou duas vezes antes de lhe explicar que não era preciso soar os alarmes, que eram apenas esquilos que vinham da floresta, mas não disse nada. Se aquela velha continuasse ignorante, o bolso dele continuava cheio.

 

∞∞∞

 

R:

Olha eles, os suspeitos do costume. Ângelo esperava os rapazes no sítio onde os esperava sempre e dirigiu-lhes a mesma frase de todas as vezes. Só que hoje, os miúdos não eram três, eram quatro.

Quem é este?

É o Gustavo, respondeu-lhe o mais velho. É o meu irmão…

O teu irmão? Eu sou o quê, agora, puto? Uma ama-seca?

Era a única forma de eu vir…

E como é que eu sei que ele não vai dar com a boca no trombone?

Eu tomo conta dele, patrão.

Espero que sim, senão dou cabo dos dois. Ora bem, vamos ao que interessa. O trabalhinho de hoje é à entrada da floresta. Vai lá estar um homem de bigode para vos entregar a encomenda. E já sabem…

Os miúdos responderam em coro: se ouvirmos uma sirene, fugimos

(#18) Ponto de interrogação, código, suspeitos

por Guilherme Fonseca, em 08.02.16

dados-18.jpg

 

R:

Alfredo Bala sentou-se com dificuldade na cadeira.

Já te decidiste a colaborar?

Silêncio.

Sabes que enquanto não nos disseres onde puseste o papel, não vais sair daqui.

Qual papel?

Não te faças de desentendido. Tens noção de que nos basta um estalar de dedo para incriminar os teus filhos, não tens? Fazemos deles suspeitos de qualquer coisa e depois, nem que te safes, não vais ter ninguém lá fora à tua espera.

Silêncio. Mais silêncio.

Minutos de tanto silêncio.

Afinal o que tem esse papel que vocês tanto querem?

Ouve, Alfredo, estou a perder a paciência contigo. Dá-nos o papel com a puta do código ou eu lixo-te a vida.

Alfredo respondeu com um braço de ferro silencioso. Não queria que o mandassem para dentro novamente. Doía-lhe demasiado o rabo para se conseguir levantar, mas um homem tem de fazer o que for preciso para proteger o que é seu. 

 
∞∞∞
 
G:

“Ela vai começar a suspeitar” pensou. Estavam naquilo há imenso tempo. O empregado continuava de Multibanco estendido, ele a esfregar a testa, ela a sorrir. “De certeza que não posso oferecer eu?”. “Não, eu é que troquei de cartão há pouco tempo, desculpa…”. Mentira. O cartão era o mesmo há meses. Ele é que estava nervoso de estar a jantar com a mulher mais bonita que já tinha visto. E os nervos deram-lhe para isso, para se esquecer do pin.

“Vamos tentar mais uma vez?” disse o empregado. “Lá terá de ser” disse ele. Carregou 1. Carregou 7. Depois 4. Depois 5. A máquina começou a pensar. Sentiu um pingo de suor a escorrer-lhe pela testa. Ela continuava a sorrir. De repente a geringonça fez um barulho e começou a cuspir um papel. Soltou um suspiro de alívio e disse “Bom, ao menos estava-me a esquecer do pin e não do teu nome, Rebeca.” Ele riu-se. Ela não, pegou no casaco, levantou-se e saiu do restaurante. Da sua boca só saiu um “era uma piada”. O empregado tirou o cartão, rasgou o talão e respondeu “eu percebi”.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D