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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#25) Gato preto, torre, sol

por Rita da Nova, em 29.02.16

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G:

Agarrou a coronha da sua espingarda e encolheu os ombros. Como se aquele pequeno gesto com as omoplatas o fosse salvar de um tiro, ali no topo daquela torre de vigia. Fê-lo por instinto. Fazia-o sempre que o raio do bicho lhe aparecia a atravessar a rua.

É azar. Aquele sacana daquele gato dá azar” pensava, tentando afastar o bicho dali com um “xô”. Mas o gato, snob como era, não lhe ligava nenhuma. Atravessava a estrada com menos medo daquele homem de espingarda do que que o homem de espingarda tinha dele. Era superticioso, pronto. O comandante ouvi-o a enxotar o gato e subiu ao seu posto. Fez continência ao seu superior, que lhe perguntou “porque raio quer mandar o gato embora?” O soldado cuspiu nervoso “é preto, é todo preto, não vem dali coisa boa”. O comandante sorriu e disse “relaxe, homem. Mais que preto, ele é gato. A única coisa que vem aí é sol”.

 

∞∞∞

 

R:

Pegou na torre e sentiu-se vitorioso: era desta que lhe comia a rainha. Assim foi, sem dó nem piedade. Amigos amigos, jogos à parte.

Olhou o adversário directamente nos olhos verdes e profundos. Viu que os piscava lentamente e percebeu que não tinha ficado chateado.

Na verdade, ele nunca se aborrecia nem dava ares de querer fazer outra coisa senão estar com ele. Nem quando estava bom tempo saía para se esticar ao sol. Sabia que fazia falta por ali e, por isso, ia cumprindo a sua missão. Aquele gato preto tinha sido a sua maior sorte.

(#9) Sol, flor, carro

por Rita da Nova, em 21.01.16

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G:

- Como é que vais? De carro?

- Não. Vou apenas.

Todos os dias se encontravam ali, durante umas horas, mas ela não saía do sítio. Ele ia a todo o lado. Amavam-se muito, aproveitavam cada segundo juntos, mas ela tinha sempre inveja dele.

- Tens a certeza?

- Tenho, meu amor.

- De certeza que não me podes levar contigo?

- Não posso. Se te levo já sabes o que acontece.

- … eu morro, já sei.

Há quem ache que morrer por amor é bonito. Ela, naquele dia, teve a certeza que não. Amar era deixá-lo ir, conhecer o mundo, e mais tarde voltar para lhe contar tudo, com pormenores. Amar era deixá-lo ir e saber que ele voltava na manhã seguinte.

- Conta-me o que viste, então.

- Vais-te rir, meu amor. Eles lá têm os olhos em bico!

Riram-se os dois.

 

∞∞∞

 

R:

Tinha sido um drama para a meter no carro. Mudar de casa é sempre mais complicado para as crianças. Afinal, as crianças são como flores: ganham raízes tão frágeis que temos de ter cuidado até com o vento, para não as magoar.  

Margarida tinha ouvido dizer que no Porto chovia muito, que é mais difícil brincar lá fora porque, para além da chuva, faz frio. Os pais sabiam que era complicado fazer uma flor crescer sem sol, mas iam tentar. Nem que para isso tivessem de construir uma estufa na nova casa. 

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