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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#27) Prato, triste, espelho

por Rita da Nova, em 14.03.16

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G:

Será que me podia dar uma pequena ajuda?

Mais uma vez perguntava, mais uma vez o ignoravam, ali sentado no seu canto, no seu pedaço de cartão. Havia quem o ouvisse a falar mas não ouvisse o que dizia. Viam-no ali sentado à entrada da estação de comboios, de mão estendida, e davam-lhe dinheiro ou comida. Uma vez até lhe deram um pão num prato, mesmo. Era de plástico mas era um prato à mesma. Ouvirem o que dizia é que ninguém fazia. Até que aquela mulher passou, puxando a sua mala cor de rosa.

Será que me podia dar uma pequena ajuda? A bela senhora parou e fitou-o. Claro. O sem abrigo perguntou - A senhora por acaso tem um espelho?. Ela respondeu-lhe - Sim, mas é pequenino - remexendo na mala. Estendo-o, o homem pegou nele e riu-se pela primeira vez em anos. Não faz mal, serve perfeitamente.

 

∞∞∞

 

R:

Alcina não conseguia controlar nenhuma das coisas. Por um lado, não sabia viver sem cozinhar. Há pessoas que nascem para determinada coisa e, mesmo que tentem fugir, vão sempre lá dar. Como Alcina.

Mas, por outro lado, não conseguia deixar de afectar os outros com os seus pratos. E não julgue o eleitor (ou o ouvinte, depende de como esta história for contada), que era uma forma de afectar normal. Não era só um "este prato fez-me o dia" ou "nunca comi coisa tão má na vida".

Alcina transformava os sentimentos daqueles que comiam os seus cozinhados. Porque aquilo que preparava transformava-se num espelho do que se passava dentro de si. Se estava triste, fazia as pessoas chorar. Se estava feliz, as pessoas dançavam energicamente enquanto comiam.

Alcina não conquistava ninguém pelo estômago. Tomava-lhes a alma e cozinhava-a a seu gosto.

 

(#16) Documentos, gaiola, prato

por Guilherme Fonseca, em 04.02.16

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R:

Olhou as migalhas no prato, mal escondidas por um guardanapo gorduroso e amarrotado. Tinha esperado tanto tempo, que decidira começar a comer sem que ele chegasse. De que serviria esperar por ele para almoçar?

Esperar já ela tinha esperado; e muito. Esperara durante horas que ele chegasse a casa e acabava sempre por adormecer no sofá. Esperara pelo momento em que ele lhe diria sim, quero ter um filho, mas nada crescera dentro dela para além da tristeza. Esperara que ele fosse honesto com ela, que lhe contasse a verdade, em vez de a encher de mentiras sempre que chegava a casa.

Sentia-se como um pássaro sem asas. De que servia ter a gaiola aberta, se mesmo assim não podia voar? Porque mesmo agora que bastava uma assinatura num papel para se libertar de vez, ele fazia-a esperar. 

 
∞∞∞
 
G:

Os dois polícias olharam um para o outro. “Vais lá tu?”, “Pode ser”. A porta da sala de interrogatório abriu-se. O suspeito encolheu-se ao ver o agente entrar.

Não vou perder muito tempo contigo. Já sei que tentaste fugir pela janela e que te enfiaram na transportadora para te acalmares.” O suspeito não reagiu. “Um gato inocente teria tentado fugir? Não me parece.” O Polícia sentou-se em frente ao suspeito. “Só te vou perguntar uma vez, que ainda tenho de tomar banho. Foste ou não foste tu quem comeu o pássaro?” O suspeito ficou de olhos grandes. As suas orelhas começaram a desaparecer atrás da sua cabeça. O Polícia só lhe respondeu “É que nem tentes… nem tentes nada ou sou obrigado a ir buscar o aspirador.” Ao ouvir a palavra o suspeito começou a saltar pelas paredes. O agente só disse “volto quando estiveres mais calmo”. Mesmo depois de fechar a porta da sala conseguia ouvir o outro a bufar pela sua liberdade.

(#3) Banana, livro, prato

por Rita da Nova, em 09.01.16

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G:

Outra vez discussão. Era assim todos os dias. A mãe dizia para ela comer e ela nada. Ficava agarrada aos livros. “Rita, come qualquer coisa. Assim ficas fraquinha” ao que a pequena e pespineta Rita dizia “eu não tenho fome. Estou a comer do livro.”

Outro dia, outra discussão e a mãe já não sabia o que fazer. A Rita não comia, só lia, a mãe gritava, a porta batia, fim de história. Mas naquele dia a mãe teve uma ideia. Não disse à Rita “anda comer” como nos outros todos. Perguntou-lhe “o que vais jantar?”. A pequena Rita, sem tirar os olhos do livro, disse apenas “banana, mamã”. A mãe aproximou-se e perguntou “ai, sim? De onde, da Madeira?” A Rita abriu um pouco mais as páginas do livro, trazendo a sua mãe para a história, e respondeu “Não. Bananas da terra do Jaime, o macaco saltitão”.

E assim ficaram as duas. Agarradas ao livro, a jantar da história.

 

∞∞∞

 

R:

És um banana, pensou, um grandessíssimo banana. Mulheres como ela não passam cartão a tipos como tu. Aceitou jantar por cortesia e entretanto deve ter tido qualquer coisa melhor para fazer. Pensa lá: tu também não irias preferir passar o serão a dobrar meias ou a fazer crochet, se te convidassem a jantar contigo?

Levantou-se enquanto engendrava uma desculpa para servir aos empregados do restaurante. Ela ficou retida no trabalho, está trânsito, está indisposta. Sentiu uma mão tocar-lhe nas costas: ela tinha vindo e, incrivelmente, tinha trazido um sorriso.

Um sorriso e não só: antes de se sentar estendeu-lhe um livro.

Desculpa o atraso, mas vi isto na montra de uma livraria e não resisti.

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