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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#33) Bang, peixe, fogo

por Rita da Nova, em 10.04.16

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G:

- Fogo, parece a gozar!

- O que foi? – perguntou-lhe a amiga.

- O meu horóscopo! Está igual! É tudo verdade!

Isabel odiava aquilo mas há coisas que não dizemos aos nossos amigos. Há felicidades que não se estragam, por muito sépticos que sejamos.

- Não queres saber o teu?

- Diz lá, então.

- És o quê?

- Peixes.

E a amiga começou a ler. Tretas, balelas e merdas para fazerem uma pessoa sentir-se bem. Palavrinhas aleatórias, coladas com cuspo ao mês em que nascemos para nos sentirmos especiais. Ia dizendo que sim com a cabeça e com o sorriso até que ouviu aquela palavra.

- ...e é por isso que deve ter cuidado com o estômago.

Bang. E não é que o horóscopo sabia exatamente que notícia tinha para dar à sua amiga?

 

∞∞∞

 

R:

Tinha-se acabado tudo. E agora, enquanto via o fim a chegar e a levar tudo consigo, não podia evitar ouvir as vozes dos outros na sua cabeça.

A tua mania de não descansar, dir-lhe-ia a mãe.

A tua mania de não querer companhia à noite, dir-lhe-ia a namorada.

A sua mania de chegar tarde ao trabalho, que o obriga a ficar a fazer noitadas para acabar tudo, dir-lhe-ia o chefe.

BANG! A fachada do prédio ruía à sua frente, enquanto as chamas lambiam as paredes e tomavam conta do telhado. Seria quase bonito, se fosse num filme. Seria quase heróico, se tudo tivesse acontecido por qualquer outro motivo que não o de ter adormecido com o peixe no forno.

(#15) Velhota, peixe, pasta

por Rita da Nova, em 02.02.16

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G:

“Olha o peeeeixe fresquinho! Fresco, fresquinho!!” Era assim que Isália gritava, todos os dias, no bolhão. Era assim que Isália ganhava a vida. Gritava que o peixe era fresco, vendia o peixe. Rute, a sua colega de banca, fez então a pergunta de sempre. “Vais querer jornal para enrolar o peixe, ou não?” mas sabia a resposta de cor. Era hoje, como era sempre, um "não". Isália esperava pelas 18h, pelo sr João, e aí sim, arranjava embrulho para o peixe.

Eram 17:59h quando ele chegou. “Sr João, robalinho?” disse Isália antes de ouvir um “Pois claro” do homem de casaco e pasta. “E tem aí uma das suas folhinhas, sr João?”. O homem abriu a pasta, tirou um livro dos dele, rasgou uma folha e deu-lha. Ela agradeceu. “A senhora é uma renda em livros, sabe? Porque não usa jornais como as suas colegas?” A mulher, embrulhando o peixe numa página de um livro, respondeu-lhe “Prefiro, sabe? É que o peixe, como as pessoas, fica mais saboroso com fantasia do que com realidade.” O homem sorriu e pagou o peixe.

 

∞∞∞

 

R:

Ela não fala há um mês, Dr., começa a não ser normal. 

Há um mês, diz? 

Certinho, fez ontem.  

Apanhou algum susto? 

Não, tenho estado sempre com ela. 

Algum desgosto, alguma morte? 

Também não. Ao início ainda achámos que fosse birra por causa da comida que damos aqui. Gosta de doces, mas temos de lhe dar comida de dieta por causa dos tratamentos. 

Que tipo de comida lhe dão? 

Mas isso interessa, Dr.? Só se lhe déssemos urtigas é que lhe rasgávamos as cordas vocais, ora essa.  

O médico abriu a pasta e tirou de lá de dentro aquela luzinha com que os médicos normalmente vêem os ouvidos e um pauzinho de gelado, mas sem a parte do gelado. Aproximou-se da velhota.  

Diga aaaaaaahhhhh. Ela abriu a boca, mas sem som.  

Tem de avisar na cozinha para terem mais cuidado, disse o médico à rapariga. O peixe é muito saudável, de facto, mas convém que seja sem espinhas. 

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