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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#34) Pegadas, lobo, peça de xadrez

por Guilherme Fonseca, em 12.04.16

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R:

Vamos ter de operar, disse a senhora de bata enquanto segurava os resultados do raio X. Como é que ele engoliu isto?

Vou ser honesta consigo, Dr.ª, não sei. Tirei os olhos dele durante dois segundos e, quando vi, já estava engasgado.

Isto parece-me uma peça de xadrez, disse a médica, com um ar estupefacto.

E é. Um peão, para ser exacta. Não o posso deixar sem supervisão, é um terror. Move-se pé ante pé, sem fazer barulho nem deixar pegadas, e depois faz-me destas.

Olhe, teve sorte. Se fosse uma peça maior, um bispo ou assim, já não estava entre nós. Vou então fazer-lhe algumas perguntas para preparar a intervenção. Nome?

Octávio.

Idade?

Três anos.

Raça?

Lobo da Alsácia.

 
∞∞∞
 
G:

Tinha de se controlar. Estava em pulgas, excitado e honrado de finalmente ir à caça com o seu pai, mas quando se está no meio de uma floresta, de espingarda em punho, à procura de um lobo que nos matou galinhas, não podemos propriamente festejar. A euforia de finalmente estar a sós com o homem que mais admirava teria de ficar para depois.

Agora silêncio que se vai salvar o gado. O pai apoiou-se num joelho, remexeu o chão, e disse por ali. Já estava a ir na direção que tinha dito quando lhe perguntou - Como sabes, pai? O homem cofiou o bigode e respondeu - Caçar é como jogar xadrez, filho. Quando mexes uma peça estás a deixar uma pegada do caminho que queres fazer. O pai voltou a caminhar entre as árvores. O filho sorriu e saiu-lhe um Xeque-mate.

(#12) Peça de xadrez, mancha, pasta

por Guilherme Fonseca, em 27.01.16

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R:

António olhou a pasta castanha pousada à porta de casa. Sabia que se a abrisse iria encontrar cadernos, material de escrita, folhas soltas e uma agenda; mas não vontade. Essa tinha desaparecido sabe-se lá para onde.

Deitou um último olhar à sala. Podia passar o dia inteiro a jogar xadrez consigo mesmo. Sempre seria mais interessante do que ir para aquele sítio, fazer aquelas tarefas, ver aquelas pessoas. A mãe dir-lhe-ia que não manchasse a sua vida profissional, que tinha quarenta anos e que, se não atinasse, ninguém lhe pegava.

Que se lixe, pensou. Antes fazer xeque-mate à minha vida profissional do que passar os dias a ser peão de alguém.

 
∞∞∞
 
G:

É um raio de um lar. Um lar onde as pessoas vão para morrer. Onde há camas, roupas e histórias por lavar. Se é um lar porque raio tem regras de prisão? “Não pode entrar com X, não pode levar Y.” O seu pai tinha apenas um prazer na vida, se levasse uma peça por visita só precisava de 32 vezes a enfiá-las na pasta de trabalho sem que nenhum enfermeiro as visse. Depois, se o seu pai nunca precisasse que lhe mudassem os lençóis, não levantavam o colchão e estavam descansados.

O tabuleiro foi o mais difícil. Levou-o enfiado nas calças e disse que tinha uma dor de costas. A enfermeira mestre ainda lhe pôs as mãos nos ombros para o massajar mas ele fugiu, ouvindo gritos de “você é mesmo como o seu pai, não se lhe pode mexer em nada!”. Ele sabia o que o pai queria. E conseguiu. Não é que as últimas palavras dele foram “xeque-mate”?

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