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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#31) Monstro, pássaro, veneno

por Rita da Nova, em 04.04.16

 

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G:

O choro do seu filho era o pior som do mundo. Os músicos podiam desafinar o que quisessem, aquele sorver de ar do seu filho quando chorava era a pior coisa que já lhe tinha entrado pelos ouvidos. E ele nunca tinha chorado, por nada. Tinha sido o bebé mais sossegado e calmo do mundo. Acordava durante a noite, sem barulho, só para ver se ele estava vivo, de tão silencioso que era. Mas hoje, pela primeira vez em 6 anos, ouvi-o a chorar.

Parou o que estava a fazer e olhou aqueles olhos cheios de lágrimas. Monstro, és um monstro! Não sabia o que dizer. Porquê, meu querido? foi o que lhe perguntou. A criança não parou de soluçar, apenas apontou para a horta que tinha à sua frente. Estás a pôr veneno nas plantas e os passarinhos morrem... és um monstro! O seu filho tinha razão. Parou de tentar proteger os seus legumes dos pássaros desde esse dia e nunca mais o ouviu chorar.

 

∞∞∞

 

R:

Desta é que ele não estava à espera. Tinha lido muito, testado ao pormenor. Em que componente tinha errado? Teria sido antes na quantidade? Podia ter ingerido uma dose maior do que devia. Mas ele tinha feito as contas, calculara tudo com base no seu peso e altura. Não só nos actuais, mas naqueles que queria atingir quando fosse, finalmente, um pássaro.

E agora isto. Que animal era ele, afinal? Isso interessava, sequer? As pessoas veriam em si um monstro, de qualquer das formas. Gastara anos de vida para conseguir fugir finalmente desta condição que o apertava, mas o antídoto tinha-se transformado em veneno.

 

(#19) Microscópio, sirene, monstro

por Rita da Nova, em 10.02.16

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G:

“Não faças isso. Não faças isso. Não faças isso.” - a voz na sua cabeça não se calava. “Não bebas isso. Tu não sabes o que trouxeste do laboratório. Tu não sabes o que isso faz.” Não sabia, de facto. Diz-se que a curiosidade matou o gato mas ele não era gato, ou era?
Na rua ouviram-se pela primeira vez as sirenes. Eram eles. Pegou no tubo e destapou-o. O líquido encheu a sala com um cheiro forte, a farmácia. Ouviu-os a subir as escadas do prédio, aos gritos. Olhou para dentro do tubo. “Que raio é que isto me vai fazer?” Na porta ouviu-se um pontapé. Outro igual e iria abrir-se. Ele ergueu a mão e bebeu tudo de penalti. Não sentiu nada. Outro pontapé e a porta abriu-se. Estavam agora 5 homens, de fato e máscaras, à sua frente. E ele ali, parado, no meio da sua sala.
Ia começar a falar quando os ouviu a dizer entre si “Vazia. A sala está vazia.” Vazia? Tinha funcionado! O líquido tinha funcionado! Pé ante pé saiu da sua sala sem que ninguém o visse. Aliás, viveu o resto da vida sem que ninguém o visse.

 

∞∞∞

 

R:

UEEOOO, UEOOO, UEEEOOOO!
Saiam da frente, saiam da frente, saiam da frente!
O pai ia com um chapéu de bombeiro e de sirene ligada na voz. Tinha pegado nele como se de um saco de batatas de tratasse. Tinha ido pela cozinha, o caminho mais curto e descongestionado até ao quarto.
Pousou-o na cama, expulsando o gato gordo que lá dormia.
Vamos ter de arrancar o dedo, não há solução.
Miguel, de surpresa fingida nos olhos, esforçava-se para não rebentar de riso.
Vou aqui ver o seu dedo ao microscópio de médico
, disse o pai, com uma piscadela de olho.
SENHORA ENFERMEIRA, SENHORA ENFERMEIRA!!!
A mãe apareceu à porta, de colher de pau na mão.
Diga?
Diga? Como é que consegue estar tão calma? Este paciente foi infectado por um veneno muito perigoso e a qualquer momento pode transformar-se num monstro!
Miguel saltou da cama e agarrou-se ao pai como se o atacasse.
Pois sim, disse a mãe. Avisem quando já estiverem os dois transformados em monstros, que o jantar está quase na mesa.

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