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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#6) Escada, lua/estrelas, luva/mão

por Guilherme Fonseca, em 15.01.16

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R:

Maria, que fazes de bicos de pés, empoleirada na janela? Sai já daí, olha que ainda cais!
A mãe vivia de coração nas mãos, tal o fascínio da catraia com tu do o que era corpo celeste. Sabia o nome das constelações, dos astros, dos planetas. Era uma sabichona de cabeça sempre na lua. Nem o telescópio que os tios lhe tinham oferecido no Natal servira para acalmar a vontade de Maria de se empoleirar na janela.
Um dia deram com ela na arrecadação, a revirar latas, caixas e prateleiras.
O que procuras?
Uma escada.
Uma escada?
Mas para que é que tu queres uma escada?
Então, enquanto não tenho idade para ser astronauta, pelo menos arranjo maneira de ir lá a cima.

 

∞∞∞

 

G:

- Eu só lhe quero tocar.

- E já conseguiste?

- Não. A minha mãe só me deixa usar o escadote quando está acordada.

- E então?

- E então? Então que de dia ela não está lá. A minha mãe segura o escadote, eu subo, e quando olho para cima...

- ...quando olhas para cima?

- Está lá o sol!

- Ah, pois.

- Eu juro que só lhe queria tocar. Não lhe ia fazer mal.

- Acho que...

- Achas o quê?

- Acho que já sei.

- Conta!

- Pensa comigo... quando está sol aqui, onde é que ela está?

- Do outro lado do mundo.

- E quem está do outro lado do mundo?

- Chineses?

- Exacto! Então, só precisas de parar de pedir ajuda à tua mãe e... pedir ajuda a um chinês!

- Boa! Mas... e agora onde é que eu arranjo um chinês?

(#2) Mão/luva, pasta, ponto de interrogação

por Guilherme Fonseca, em 07.01.16

 

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R:

Francisco vivia fascinado com aquele homem. Fazia-lhe lembrar a girafa que tinha visto no Jardim Zoológico: muito alto, pescoço longo, de andar cuidadoso, quase como se os pés examinassem o mundo antes de decidirem avançar. Trazia sempre uma mala de couro na mão esquerda e uma luva apenas na mão direita.

Um dia, o rapaz encheu-se de coragem:

Posso fazer-lhe uma pergunta?

Já não fizeste?

Porque é que traz só uma luva? Não tem frio na outra mão?

E quem te diz que a outra mão é verdadeira?

 

∞∞∞

 

G:

37 anos. 37 anos de carreira - 9 deles de estudo - que iam pelo cano abaixo. Tinha acabado de cometer um disparate enorme mas como médico sabia que às vezes é um disparate que salva uma vida. Uma vida mas não uma carreira. Essa ia acabar. O director do Hospital estava parado à sua frente, ele, uma luva e um ultimato. “Então? Operaste ou não operaste sem a outra luva? Tu sabes que isso é contra as regras do hospital!”. Sim, tinha operado só com uma luva mas ninguém sabia. Só a enfermeira que o acompanhou na cirurgia, e que no final lhe deu a pasta dizendo “não se preocupe”.

Sem resposta o director do hospital era forçado a investigar. Empurrou-o para dentro da sala de cirurgia e disse “ou está uma luva aqui dentro ou podes ir lavar carros”. 37 anos de carreira que iam desaparecer ali, naquele instante. E por alguma razão, não lhe saia a frase da enfermeira da cabeça. “Não se preocupe”. Não me preocupo porquê?

O director remexia no lixo gritando “estás feito!” quando lhe respondeu “não se curve que isso dá-lhe cabo das costas, sr director”. O director ergueu a cabeça e viu o médico com outra luva na mão. “Tem de começar a confiar mais na sua equipa. A mim ajuda-me imenso”.

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