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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#34) Pegadas, lobo, peça de xadrez

por Guilherme Fonseca, em 12.04.16

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R:

Vamos ter de operar, disse a senhora de bata enquanto segurava os resultados do raio X. Como é que ele engoliu isto?

Vou ser honesta consigo, Dr.ª, não sei. Tirei os olhos dele durante dois segundos e, quando vi, já estava engasgado.

Isto parece-me uma peça de xadrez, disse a médica, com um ar estupefacto.

E é. Um peão, para ser exacta. Não o posso deixar sem supervisão, é um terror. Move-se pé ante pé, sem fazer barulho nem deixar pegadas, e depois faz-me destas.

Olhe, teve sorte. Se fosse uma peça maior, um bispo ou assim, já não estava entre nós. Vou então fazer-lhe algumas perguntas para preparar a intervenção. Nome?

Octávio.

Idade?

Três anos.

Raça?

Lobo da Alsácia.

 
∞∞∞
 
G:

Tinha de se controlar. Estava em pulgas, excitado e honrado de finalmente ir à caça com o seu pai, mas quando se está no meio de uma floresta, de espingarda em punho, à procura de um lobo que nos matou galinhas, não podemos propriamente festejar. A euforia de finalmente estar a sós com o homem que mais admirava teria de ficar para depois.

Agora silêncio que se vai salvar o gado. O pai apoiou-se num joelho, remexeu o chão, e disse por ali. Já estava a ir na direção que tinha dito quando lhe perguntou - Como sabes, pai? O homem cofiou o bigode e respondeu - Caçar é como jogar xadrez, filho. Quando mexes uma peça estás a deixar uma pegada do caminho que queres fazer. O pai voltou a caminhar entre as árvores. O filho sorriu e saiu-lhe um Xeque-mate.

(#21) Bang, lobo, banana

por Rita da Nova, em 20.02.16

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G:

És um banana, pensou.

Todos os teus amigos vão às aldeias aterrorizar os homens e comer as galinhas e tu nada. Ficas a uivar nas saias da mãe, como todos dizem. És um mariquinhas, um cobarde, que tem peninha dos humanos, que acha que todos os bichos, todos os animais merecem paz. Balelas. Devias ser como os outros e não andavas sempre sozinho. O lobo solitário é uma péssima fama.

Era isso, ia à aldeia, mordia uma galinha e fugia. Mostrava-a a todos e iriam aceitá-lo no grupo. Lobo sem alcateia não é lobo. Foi então que o fez. Nessa noite, dirigiu-se ao galinheiro dos humanos, pata ante pata. Aproximou-se das galinhas e começou a escolher a mais velhinha e doente. Foi então que se tornou num lobo pioneiro, no primeiro da sua alcateia a ouvir aquele som. BANG. Somos todos bichos, até deixarmos de o ser.

 
∞∞∞
 
R:

Quando nos transformamos num lobo solitário, aprendemos a viver com pouco. Como se a companhia tivesse levado consigo tudo o que importa. Deixamos de fazer refeições: passar o dia apenas com uma torrada ou uma banana no estômago não nos deixa particularmente tristes.

A vida é o que é e, agora, deixou de ser alguma coisa com que valha a pena preocupar-me.

Deixa sequer de nos importar se nos batem à porta. Bang, bang, bang. Fingimos que não estamos. Sabemos que do outro lado não está ninguém que mereça o esforço de sairmos de nós mesmos.

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