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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#22) Hambúrguer, bicicleta, microscópio

por Guilherme Fonseca, em 22.02.16
 

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R:

Saiu da bicicleta a pingar, questionando-se se 1h30 tinha sido suficiente. Talvez sim, talvez não. Depende de muitos factores, como dizem os especialistas. Ela fingia não acreditar neles, mas, em segredo, lia tudo o que eram livros e sites sobre o assunto.

Será que já queimei as calorias do hambúrguer? A pergunta não lhe saía da cabeça. Sentia-se todos os dias como Golias, a tentar combater em vão aqueles seres microscópicos. 

 
∞∞∞
 
G:

Queijo. 10 minutos.

Pão. 15 minutos.

Carne. 18 minutos.

Batatas. 32 minutos.

Toda a gente dizia que ela era perfeita para escolher o que comer. Nos restaurantes passavam-lhe o menu e era ela que, durante largos minutos, analisava os pratos e os ingredientes ao microscópio, como se resolvesse uma complicada fórmula. Todos a achavam gourmet. Epicurista. Um bom garfo. Mas não. Não faziam ideia do que se passava na sua cabeça enquanto lia.

E era simples. Doloroso mas simples. O pão, 15 minutos. O queijo, 10. O resto, 50. Aquele jantar seria quase uma hora e meia na bicicleta para desaparecer do seu corpo.

(#5) Hambúrguer, coração, chave

por Rita da Nova, em 13.01.16

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G:

“É o costume?” Ele respondeu só que sim. Respondia sempre só que sim. Não tinha coragem de dizer mais nada. Ela era sempre simpática. E ele ficava sempre calado. Já nem o pedido fazia. Já era só “o costume” mirrando o número de palavras que lhe dizia. E ele queria dizer tantas. Muitas mesmo. “Bonita”. “Sorriso”. “Jantar”. “Hoje”. “Beijo”. “Sempre”. Eram algumas mas não saía nenhuma.

Ficou ao balcão a comer e a olhar para ela, como sempre fazia. Ele mastigava, ela sorria, ele engolia. Isto durante uma hora até se acabar o hambúrguer. Mas hoje algo foi diferente. Hoje, quando ela pegou nos pratos para os levar para a cozinha, deixou cair uma chave. E ele, aproveitando a quebra na rotina, falou-lhe. Mas nada saiu. O pedaço de hambúrguer que tinha na garganta não deixou sair uma única palavra. E pior. Não deixou entrar ar. E disso ele precisava mais do que de lhe falar.

Ela foi para a cozinha com os pratos. Ele ficou no chão com as palavras. E sem ar.

 

∞∞∞

 

R:

Ela tinha a certeza de que o hambúrguer iria resolver tudo. Era o último recurso que tinha e agora, depois de ter emborcado um Big Mac com batatas e ketchup, continuava a sentir-se vazia.

Antes do hambúrguer tinha sido um balde de gelado e, ainda antes disso, a tablete de chocolate. Junk food e comédias românticas curam tudo, tinham-lhe dito as amigas. Uma ova. Agora, para além de ter o coração aos pedacinhos, sentia-se gorda.

O tempo cura tudo, tinha-lhe dito a mãe, mas os dias passavam e o coração apodrecia mais e mais, qual cadáver deixado ao ar livre.

Depois tinham vindo os colegas de trabalho, cheios de soluções e projectos: do que ela precisava era de voltar a sair. Mas as ruas e as pessoas metiam-lhe medo e só serviam para a tornar ainda mais leve e insignificante. Pegou na embalagem do hambúrguer, pô-la dentro do saco de papel e deitou tudo ao lixo.

Não há cura para um coração partido, pensou. A chave para a sobrevivência é ir morrendo um bocadinho menos a cada dia.

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