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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#28) Telemóvel, gato, poço

por Guilherme Fonseca, em 16.03.16

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R:

Tinha sido culpa do gato. Era sempre culpa do gato porque, na maioria das vezes, o sacana acertava. Habituara-se a isso e, das vezes em que tentou ignorar, tinha-se dado mal. Por isso, corresse bem ou mal, era culpa do gato. 

Agora estava ali, no meio do bosque, à procura de alguma coisa, mas sem saber bem o quê. Nunca sabia ao que ia: o gato dava o sinal e ele seguia-o, até encontrar qualquer coisa. As pessoas chamavam-lhe herói, sem saberem que a culpa era do gato. 

O que haveria agora para si? Uma senhora para salvar de um assalto? Um cartel de droga para desmantelar? Soube-o quando chegou junto do poço e ouviu aquele som tão familiar, mas tão desenquadrado naquele ambiente. Triiiim, triiim. 

Lembrou-se de reformular uma questão que ouvira muitas vezes quando era criança: se um gato te disser para te atirares a um poço… atiras?

 
∞∞∞
 
G:

Ela de costas. Ele ali pousado, mesmo a jeito. Tão a jeito que metia nojo. Bastava um toque, tão pequeno que podia mesmo ser sem querer, que cairia para o fundo daquele poço. Podia sempre dizer que tinha sido o gato. Ela não saberia, que estava de costas. Tinha tanta vontade mas era tão errado. Metade do seu corpo dizia que não, a outra dizia que sim, e a sua mão, mais precisamente a ponta do seu dedo, estavam já a concordar.

Encostou a unha e fez um bocadinho de força. O telemóvel foi engolido pelo escuro do poço, em silêncio. Ela nem suspeitou. Perfeito. Teria agora a atenção dela, sem distrações. Ela iria olhá-lo nos olhos, sem os desviar de 20 em 20 segundos para aquele ecrã. Olhariam um para o outro como não acontecia há anos, pelo menos até ela se aperceber. 

(#11) Relógio, gato, microscópio

por Rita da Nova, em 25.01.16

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G:

Passava horas, horas, a olhar para aquele aparelho, a ver coisas pequenas, pequeninas e microscópicas. Ninguém via tão pequeno, durante tanto tempo, como ele. Mas mesmo assim não conseguia descobrir que pormenorzinhoito tinha feito com que ela ficasse chateada. Que será que foi? Nem com a bata mais limpa e o microscópio mais potente conseguia ver a célula do problema, o átomo da discussão.

Anos a estudar biologia e em 2 segundos de química tinha perdido a mulher que amava. Como um gato que pede festas e ao fim de 3 morde e foge. Aí estava um problema que não sabia resolver. Por muita solução que tivesse, ele não a encontrava. Não havia caixa de petri suficientemente grande para meter a relação dele. Só sabia que a doença que tinha apanhado se chamava paixão.

 

∞∞∞

 

R:

O relógio marcava as quatro horas. Não da tarde, da manhã. Quatro horas da tarde é uma hora aceitável para estar a pensar em coisas estapafúrdias; quatro horas da manhã não tanto. Às quatro horas da manhã podemos estar a sonhar com coisas estapafúrdias, mas não a pensar nelas.  

Não sabia como é que aquela ideia se tinha formado na sua cabeça, mas quando deu por si já estava na despensa em busca do microscópio que lhe tinham oferecido quando era criança.  

Se conseguisse provar que aquele cabelo ruivo era, sabe-se lá, de um gato, então podia concluir com toda a certeza que ela não era real. Só quando montou o aparelho é que se lembrou de que não era cientista. Sabia lá ele distinguir as células humanas das animais. Olhou para o relógio. Quatro horas da manhã.  

Ia mas é deitar-se e aceitar o facto de ela ser demasiado verdade para ser mentira.  

(#1) Gato, avião, café

por Rita da Nova, em 05.01.16

 

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G:

- Apetece-te Brunch?

- Sim.

- Posso escolher eu?

- Claro.

- Então vamos a Viena.

- És doido.

- Não. – disse ele mostrando um par de bilhetes.

E de repente, num passo de magia entre a cama dele e um avião, estavam

a caminho de Viena. Não em férias, não em trabalho, não em passeio. Em

pequeno almoço. Chegaram, comeram, passearam e quando descobriram o

hotel ela disse:

- Adorei, sabias?

Ele beijou-a e disse - ...mas?

- ...mas acho que não deixei comida à minha gata.

- Não faz mal. – respondeu abrindo a porta do quarto.

Tinham todos ido tomar o pequeno almoço a Viena.

 

∞∞∞

 

 

R:

Juliano estava irritado. Os irmãos podiam ter ficado com o raio do gato, mas não, para não variar ia sempre tudo parar em cima dele. Tinha sido um horror meter o bicho na caixa, tratar da papelada, das vacinas e conseguir espaço para ele no avião, junto da bagagem. Ninguém tinha culpa da morte da mãe, é certo, mas ao menos podiam ter tido a decência de poupar o animal.

Vai querer alguma coisa para beber?, perguntou a hospedeira.

Whisky, pensou, mas depois lembrou-se que ainda não eram 11h da manhã e pediu um café.

A rapariga encheu um copo de papel e, no momento em que lho entregava, o avião foi atingido por uma turbulência inesperada. O copo escapou-se-lhe das mãos e o café caiu no colo de Juliano. Como sempre, ia tudo parar em cima dele.

 

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