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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#16) Documentos, gaiola, prato

por Guilherme Fonseca, em 04.02.16

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R:

Olhou as migalhas no prato, mal escondidas por um guardanapo gorduroso e amarrotado. Tinha esperado tanto tempo, que decidira começar a comer sem que ele chegasse. De que serviria esperar por ele para almoçar?

Esperar já ela tinha esperado; e muito. Esperara durante horas que ele chegasse a casa e acabava sempre por adormecer no sofá. Esperara pelo momento em que ele lhe diria sim, quero ter um filho, mas nada crescera dentro dela para além da tristeza. Esperara que ele fosse honesto com ela, que lhe contasse a verdade, em vez de a encher de mentiras sempre que chegava a casa.

Sentia-se como um pássaro sem asas. De que servia ter a gaiola aberta, se mesmo assim não podia voar? Porque mesmo agora que bastava uma assinatura num papel para se libertar de vez, ele fazia-a esperar. 

 
∞∞∞
 
G:

Os dois polícias olharam um para o outro. “Vais lá tu?”, “Pode ser”. A porta da sala de interrogatório abriu-se. O suspeito encolheu-se ao ver o agente entrar.

Não vou perder muito tempo contigo. Já sei que tentaste fugir pela janela e que te enfiaram na transportadora para te acalmares.” O suspeito não reagiu. “Um gato inocente teria tentado fugir? Não me parece.” O Polícia sentou-se em frente ao suspeito. “Só te vou perguntar uma vez, que ainda tenho de tomar banho. Foste ou não foste tu quem comeu o pássaro?” O suspeito ficou de olhos grandes. As suas orelhas começaram a desaparecer atrás da sua cabeça. O Polícia só lhe respondeu “É que nem tentes… nem tentes nada ou sou obrigado a ir buscar o aspirador.” Ao ouvir a palavra o suspeito começou a saltar pelas paredes. O agente só disse “volto quando estiveres mais calmo”. Mesmo depois de fechar a porta da sala conseguia ouvir o outro a bufar pela sua liberdade.

(#10) Velhota, gaiola, intrigado

por Guilherme Fonseca, em 23.01.16

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R:

A aldeia vivia com medo daquela velhota. Muito curvada, de expressão seca, vagueava pelas ruas estreitas sem nunca falar. Nem sorrir, nem olhar ninguém nos olhos. Corria o mito de que ela nem sequer os tinha, que ali havia duas pedras negras a tapar o buraco.
Felícia e Agostinho tiveram de a seguir um dia. Passavam os dias intrigados e, ao contrário do resto da aldeia, não tinham medo. Estavam apenas curiosos, como boas crianças que eram.
Discretos e aos cochichos, lá a seguiram até casa um dia, na esperança de resolver o mistério. Deixaram-na entrar, esperaram que tivesse tempo de se pôr à vontade, e ganharam coragem para espreitar pela janela.
Aquilo que viram pôs-lhes o coração a bater mais forte, quase tão forte como as asas dos pássaros que esvoaçavam naquela sala. E a velhota, numa festa de cor e penas, rodopiava com eles, ao som da música que eles chilreavam. Naquela casa não havia gaiolas; não era preciso. Os pássaros eram tão felizes com ela, que nunca quereriam fugir. E a velhota era tão feliz com eles, que não precisava de amigos humanos para nada.

 
∞∞∞
 
G:

As duas crianças estavam agachadas, no parapeito da janela, a olhar para a gaiola vazia.
Juro-te!” disse Henrique.
Isso é uma estupidez.” respondeu-lhe a Luisa. Todos os dias a mesma investigação, nunca chegavam a nenhuma conclusão. Hoje o Henrique tinha uma.
Ouve… de dia o pássaro desaparece, não é?
Sim.
E de noite, ele está lá… mas e a velha?
A velha desaparece.
Então! Se eles nunca estão no mesmo sítio ao mesmo tempo… ela é o pássaro!
Oh, isso é parvo. Como é que ela é o pássaro, mano?
É ela, juro-te! E depois durante o dia transforma-se para andar pela rua.
A refilar connosco”.
Riram-se os dois. Atrás dele, de repente, ouviu-se barulho de madeira a ranger. Viraram-se ambos, devagar. Era a velha, que os olhava de mãos nas ancas, e que depois de alguns segundos abriu a boca e só disse “piu”. O Henrique e a Luisa fugiram a correr. E juram que enquanto desciam as escadas, conseguiam ouvir a velhota a rir.

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