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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#30) Flor, documentos, cofre

por Guilherme Fonseca, em 01.04.16

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R:

Todos sabiam que ela não era boa da cabeça, mas foi preciso esperarem até à sua morte para terem real noção da sua loucura.

O testamento era incompreensível. O que raio era o tesouro, em que cofre estava guardado e, mais importante que isso, como se abria?

Aposto que são documentos importantes, dizia a Tia Ofélia, que mandava sempre a sua laracha em alturas destas (e nunca acertava). Houve quem achasse que fosse dinheiro e jóias, remédios que tirariam toda a família da miséria. Aquela egoísta, diria a tia Ofélia.

Encontraram o cofre numa parede falsa, no quarto em que tinha dormido toda a sua vida. E estava aberto. Aberto para que as flores pudessem respirar. Só aí perceberam porque é que ela tinha pedido que não lhe deixassem morrer o tesouro.

 
∞∞∞
 
G:

“Fugidia” era o que todos lhe chamavam. “Insatisfeita” era o que achavam que era. Mas ninguém a conhecia para saber porquê. Mais uma segunda-feira, mais um primeiro dia num emprego. Sentou-se na sua nova cadeira, ajeitou os documentos na sua mesa e pousou o vaso com a flor à sua frente.

Era o seu primeiro dia naquele banco. Iria entrar e sair daquele cofre, como tinha entrado e saído de cozinhas, salas de aula, salas de operação ou salas de reunião. As pessoas chamavam-lhe de tudo, ao verem o seu currículo aumentar com empregos e mais empregos. Patrões imploravam-lhe que ficasse, colegas choravam que não fosse, o que ninguém sabia é que quem ditava o tempo que ali ficaria, era a flor. Para ela, um emprego era como aquele ser: florescia o máximo possível até ser tempo de mudar de canteiro.

(#9) Sol, flor, carro

por Rita da Nova, em 21.01.16

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G:

- Como é que vais? De carro?

- Não. Vou apenas.

Todos os dias se encontravam ali, durante umas horas, mas ela não saía do sítio. Ele ia a todo o lado. Amavam-se muito, aproveitavam cada segundo juntos, mas ela tinha sempre inveja dele.

- Tens a certeza?

- Tenho, meu amor.

- De certeza que não me podes levar contigo?

- Não posso. Se te levo já sabes o que acontece.

- … eu morro, já sei.

Há quem ache que morrer por amor é bonito. Ela, naquele dia, teve a certeza que não. Amar era deixá-lo ir, conhecer o mundo, e mais tarde voltar para lhe contar tudo, com pormenores. Amar era deixá-lo ir e saber que ele voltava na manhã seguinte.

- Conta-me o que viste, então.

- Vais-te rir, meu amor. Eles lá têm os olhos em bico!

Riram-se os dois.

 

∞∞∞

 

R:

Tinha sido um drama para a meter no carro. Mudar de casa é sempre mais complicado para as crianças. Afinal, as crianças são como flores: ganham raízes tão frágeis que temos de ter cuidado até com o vento, para não as magoar.  

Margarida tinha ouvido dizer que no Porto chovia muito, que é mais difícil brincar lá fora porque, para além da chuva, faz frio. Os pais sabiam que era complicado fazer uma flor crescer sem sol, mas iam tentar. Nem que para isso tivessem de construir uma estufa na nova casa. 

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