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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#24) Coração, café, borboleta

por Guilherme Fonseca, em 26.02.16

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R:

Não podes falhar, pensava, enquanto segurava os instrumentos com todo o cuidado. Tinha treinado muito, passara horas a ver tutoriais de como fazer o coração perfeito. Não devia ser assim tão difícil, o YouTube ensina tudo.

Tinha-os alertado: avisem-me assim que a rapariga com a tatuagem nas clavículas chegar.

Ele nunca tinha visto tatuagem tão pequena, tão simples e tão bonita. Um excelente reflexo dela. Ouviu a porta a abrir.

Chegou, disseram-lhe.

Chegou, pensou. Não estava nervoso: sabia que tinha treinado o suficiente para se sair bem.

Saiu da cozinha, de cappuccino na mão. Não havia como errar: ela pedia sempre o mesmo e iria certamente reparar no coração desenhado com leite na espuma.

Caiu-lhe da mão assim que a viu. Um tapete de líquido e cacos ocupou o chão. Uma boa metáfora para o que lhe aconteceu ao coração quando viu aqueles lábios masculinos pousados nela.

 
∞∞∞
 
G:

Tinha combinado o encontro num café para que não fosse estranho. Pobre coitado, foi o que se lembrou. Onde é que um homem se senta para conversar com o seu coração? Não é uma conversa simples de se ter mas a acontecer, que seja num café, então.

Eram 14h quando ele entrou. O seu corpo já o esperava, com todos os outros órgãos. Sentou-se.

Não devias beber isso, acelera-me.

- É só um café, até te faz bem.

Imagine as perguntas que teria para o seu coração, se ele lhe respondesse. Aqueles dois podiam falar do quisessem. Podia dizer qualquer coisa que o seu coração responderia mas ali, naquele café, só lhe conseguiu dizer:

- Preciso que te acalmes.

- Oh...

- Não é "oh". Andas a mil, mal consigo dormir. Preciso que descanses.

O coração suspirou.

- Sabes que não sou eu, certo? Sabes que são as borboletas que tens na barriga.

- Isso não faz sentido. Ninguém tem borboletas na barriga.

- Tu tens, que eu vejo-as. E mais te digo. Podes convidar-me para todos os cafés que quiseres... mas és tu que tens de me acalmar. Eu só estou aqui para bater por ti.

(#20) Livro, coração, ADN

por Guilherme Fonseca, em 12.02.16

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R:

Mais maçador do que eu me lembrava, desabafou Irene quando fechou o livro e o pousou no colo. Tinha chegado a uma altura em que tinha de os repetir e talvez por isso lhe parecessem sempre mais maçadores do que da primeira vez. Como já lhes conhecia o fim, o caminho até lá soava-lhe aborrecido e desnecessário.

É para aprenderes que o sangue não prende as pessoas. Se prendesse, ao menos traziam-te livros novos com que te entreteres. Mesmo que não tivessem vida ou tempo para te visitar com frequência e fazer-te companhia. Pelo menos traziam palavras. Mas nem isso. É bem feita, Irene. É para aprenderes que lá porque partilhas com eles o ADN, não significa que lhes estejas no coração. 

 
∞∞∞
 
G:

O velhote levantou-se. “Eu acho que devíamos ter um livro de presenças”. Toda a gente suspirou. A rapariga sorriu de forma condescendente e só respondeu “Sr Fernando, como lhe disse a semana passada, não sentimos essa necessidade. Mas se faz tanta questão, força. Não queremos que lhe dê nada de coração.” Toda a gente se riu. O sr Fernando não.

Tinha finalmente o que queria, ia tratar disso. Pegou numa folha e numa caneta e começou a percorrer toda a gente naquela sala. Queria que ela fosse a última para não suspeitar de nada. Se ela fosse quem ele achava que ela era, seria esperta e iria perceber.

Ele conseguiu todos os nomes antes de lhe estender a folha. “És tu”. Ela sorriu, pegou na caneta e escreveu o seu nome completo. Ele rodou a folha e leu o que ela tinha escrito. Tinha razão. Ela era mesmo. “Satisfeito, Sr Fernando?” Ele respondeu, orgulhoso e pela primeira vez, “Muito, minha filha” antes de se voltar a sentar.

(#5) Hambúrguer, coração, chave

por Rita da Nova, em 13.01.16

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G:

“É o costume?” Ele respondeu só que sim. Respondia sempre só que sim. Não tinha coragem de dizer mais nada. Ela era sempre simpática. E ele ficava sempre calado. Já nem o pedido fazia. Já era só “o costume” mirrando o número de palavras que lhe dizia. E ele queria dizer tantas. Muitas mesmo. “Bonita”. “Sorriso”. “Jantar”. “Hoje”. “Beijo”. “Sempre”. Eram algumas mas não saía nenhuma.

Ficou ao balcão a comer e a olhar para ela, como sempre fazia. Ele mastigava, ela sorria, ele engolia. Isto durante uma hora até se acabar o hambúrguer. Mas hoje algo foi diferente. Hoje, quando ela pegou nos pratos para os levar para a cozinha, deixou cair uma chave. E ele, aproveitando a quebra na rotina, falou-lhe. Mas nada saiu. O pedaço de hambúrguer que tinha na garganta não deixou sair uma única palavra. E pior. Não deixou entrar ar. E disso ele precisava mais do que de lhe falar.

Ela foi para a cozinha com os pratos. Ele ficou no chão com as palavras. E sem ar.

 

∞∞∞

 

R:

Ela tinha a certeza de que o hambúrguer iria resolver tudo. Era o último recurso que tinha e agora, depois de ter emborcado um Big Mac com batatas e ketchup, continuava a sentir-se vazia.

Antes do hambúrguer tinha sido um balde de gelado e, ainda antes disso, a tablete de chocolate. Junk food e comédias românticas curam tudo, tinham-lhe dito as amigas. Uma ova. Agora, para além de ter o coração aos pedacinhos, sentia-se gorda.

O tempo cura tudo, tinha-lhe dito a mãe, mas os dias passavam e o coração apodrecia mais e mais, qual cadáver deixado ao ar livre.

Depois tinham vindo os colegas de trabalho, cheios de soluções e projectos: do que ela precisava era de voltar a sair. Mas as ruas e as pessoas metiam-lhe medo e só serviam para a tornar ainda mais leve e insignificante. Pegou na embalagem do hambúrguer, pô-la dentro do saco de papel e deitou tudo ao lixo.

Não há cura para um coração partido, pensou. A chave para a sobrevivência é ir morrendo um bocadinho menos a cada dia.

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