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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#26) Café, chave, triste

por Guilherme Fonseca, em 03.03.16

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R:

Isso é triste, disse-lhe o amigo. 

É que é mesmo essa a palavra: triste. É como ter todo o dinheiro do mundo e nada em que o gastar. 

Ou uma chave sem nada para abrir, acrescentou o outro. 

Tu hoje estás a acertar todas, o que é que te puseram no café?

Agora a sério, continuou o amigo. Aquilo que tu estás a ver como sendo um problema, talvez não seja tão mau assim. 

Olha que eu acho que é. Preferia não ter nada, estar vazio, ser apenas um pedaço de carne andante, cujo único objectivo é o de ir vivendo. 

Ou o de não morrer. 

É o que eu digo, estás inspirado. 

Oh meu amigo, é bem melhor do que estar como tu: apaixonado e sem ninguém para amar. 

 
∞∞∞
 
G:

Não estava lá. Já sabia que era dia não. Quando aquele pedacinho de metal dentado não estava pousado na mesa da entrada, era porque ele estava em dia não e tinha ido sair. Era pior que o euromilhões, acertar como é que ele ia estar. Apaixonado, zangado, feliz, triste, amuado, as hipóteses eram muitas mas se a chave não estava ali, a solução era só uma: ele tinha saído. Dar uma volta, como sempre fazia quando acordava com “o rabo virado para a lua” como dizia a sua mãe.

Iria fazer o costume. Arrumar a roupa lavada, preparar os almoços do dia seguinte e sentar-se a beber um café. Era nessa altura que ele chegava, lhe dava um beijo na testa e iam dormir. Mas naquele dia não. Arrumou a roupa, preparou os almoços, bebeu um café. E outro. E outro. E outro. Tomou cafés o resto da vida sem que ele voltasse para lhe dar o beijo na testa. 

(#5) Hambúrguer, coração, chave

por Rita da Nova, em 13.01.16

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G:

“É o costume?” Ele respondeu só que sim. Respondia sempre só que sim. Não tinha coragem de dizer mais nada. Ela era sempre simpática. E ele ficava sempre calado. Já nem o pedido fazia. Já era só “o costume” mirrando o número de palavras que lhe dizia. E ele queria dizer tantas. Muitas mesmo. “Bonita”. “Sorriso”. “Jantar”. “Hoje”. “Beijo”. “Sempre”. Eram algumas mas não saía nenhuma.

Ficou ao balcão a comer e a olhar para ela, como sempre fazia. Ele mastigava, ela sorria, ele engolia. Isto durante uma hora até se acabar o hambúrguer. Mas hoje algo foi diferente. Hoje, quando ela pegou nos pratos para os levar para a cozinha, deixou cair uma chave. E ele, aproveitando a quebra na rotina, falou-lhe. Mas nada saiu. O pedaço de hambúrguer que tinha na garganta não deixou sair uma única palavra. E pior. Não deixou entrar ar. E disso ele precisava mais do que de lhe falar.

Ela foi para a cozinha com os pratos. Ele ficou no chão com as palavras. E sem ar.

 

∞∞∞

 

R:

Ela tinha a certeza de que o hambúrguer iria resolver tudo. Era o último recurso que tinha e agora, depois de ter emborcado um Big Mac com batatas e ketchup, continuava a sentir-se vazia.

Antes do hambúrguer tinha sido um balde de gelado e, ainda antes disso, a tablete de chocolate. Junk food e comédias românticas curam tudo, tinham-lhe dito as amigas. Uma ova. Agora, para além de ter o coração aos pedacinhos, sentia-se gorda.

O tempo cura tudo, tinha-lhe dito a mãe, mas os dias passavam e o coração apodrecia mais e mais, qual cadáver deixado ao ar livre.

Depois tinham vindo os colegas de trabalho, cheios de soluções e projectos: do que ela precisava era de voltar a sair. Mas as ruas e as pessoas metiam-lhe medo e só serviam para a tornar ainda mais leve e insignificante. Pegou na embalagem do hambúrguer, pô-la dentro do saco de papel e deitou tudo ao lixo.

Não há cura para um coração partido, pensou. A chave para a sobrevivência é ir morrendo um bocadinho menos a cada dia.

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