Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#5) Hambúrguer, coração, chave

por Rita da Nova, em 13.01.16

dados-5.jpg

 

 

G:

“É o costume?” Ele respondeu só que sim. Respondia sempre só que sim. Não tinha coragem de dizer mais nada. Ela era sempre simpática. E ele ficava sempre calado. Já nem o pedido fazia. Já era só “o costume” mirrando o número de palavras que lhe dizia. E ele queria dizer tantas. Muitas mesmo. “Bonita”. “Sorriso”. “Jantar”. “Hoje”. “Beijo”. “Sempre”. Eram algumas mas não saía nenhuma.

Ficou ao balcão a comer e a olhar para ela, como sempre fazia. Ele mastigava, ela sorria, ele engolia. Isto durante uma hora até se acabar o hambúrguer. Mas hoje algo foi diferente. Hoje, quando ela pegou nos pratos para os levar para a cozinha, deixou cair uma chave. E ele, aproveitando a quebra na rotina, falou-lhe. Mas nada saiu. O pedaço de hambúrguer que tinha na garganta não deixou sair uma única palavra. E pior. Não deixou entrar ar. E disso ele precisava mais do que de lhe falar.

Ela foi para a cozinha com os pratos. Ele ficou no chão com as palavras. E sem ar.

 

∞∞∞

 

R:

Ela tinha a certeza de que o hambúrguer iria resolver tudo. Era o último recurso que tinha e agora, depois de ter emborcado um Big Mac com batatas e ketchup, continuava a sentir-se vazia.

Antes do hambúrguer tinha sido um balde de gelado e, ainda antes disso, a tablete de chocolate. Junk food e comédias românticas curam tudo, tinham-lhe dito as amigas. Uma ova. Agora, para além de ter o coração aos pedacinhos, sentia-se gorda.

O tempo cura tudo, tinha-lhe dito a mãe, mas os dias passavam e o coração apodrecia mais e mais, qual cadáver deixado ao ar livre.

Depois tinham vindo os colegas de trabalho, cheios de soluções e projectos: do que ela precisava era de voltar a sair. Mas as ruas e as pessoas metiam-lhe medo e só serviam para a tornar ainda mais leve e insignificante. Pegou na embalagem do hambúrguer, pô-la dentro do saco de papel e deitou tudo ao lixo.

Não há cura para um coração partido, pensou. A chave para a sobrevivência é ir morrendo um bocadinho menos a cada dia.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D