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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#25) Gato preto, torre, sol

por Rita da Nova, em 29.02.16

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G:

Agarrou a coronha da sua espingarda e encolheu os ombros. Como se aquele pequeno gesto com as omoplatas o fosse salvar de um tiro, ali no topo daquela torre de vigia. Fê-lo por instinto. Fazia-o sempre que o raio do bicho lhe aparecia a atravessar a rua.

É azar. Aquele sacana daquele gato dá azar” pensava, tentando afastar o bicho dali com um “xô”. Mas o gato, snob como era, não lhe ligava nenhuma. Atravessava a estrada com menos medo daquele homem de espingarda do que que o homem de espingarda tinha dele. Era superticioso, pronto. O comandante ouvi-o a enxotar o gato e subiu ao seu posto. Fez continência ao seu superior, que lhe perguntou “porque raio quer mandar o gato embora?” O soldado cuspiu nervoso “é preto, é todo preto, não vem dali coisa boa”. O comandante sorriu e disse “relaxe, homem. Mais que preto, ele é gato. A única coisa que vem aí é sol”.

 

∞∞∞

 

R:

Pegou na torre e sentiu-se vitorioso: era desta que lhe comia a rainha. Assim foi, sem dó nem piedade. Amigos amigos, jogos à parte.

Olhou o adversário directamente nos olhos verdes e profundos. Viu que os piscava lentamente e percebeu que não tinha ficado chateado.

Na verdade, ele nunca se aborrecia nem dava ares de querer fazer outra coisa senão estar com ele. Nem quando estava bom tempo saía para se esticar ao sol. Sabia que fazia falta por ali e, por isso, ia cumprindo a sua missão. Aquele gato preto tinha sido a sua maior sorte.

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