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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#23) Chuva, sapo, código

por Rita da Nova, em 24.02.16

dados-23.JPG

 

 

 

G:

100. 99. 98. 97.

Ia começar a chover brevemente. Se não se despachasse não ia conseguir encontrá-la antes que os pais voltassem e os levassem a todos para casa outra vez.

87. 86. 85. 84.

Dizia os números em voz alta para que todos o ouvissem mas só um par de orelhas lhe interessava. Onde estaria escondida? Queria descobri-la a ela primeiro.

63. 62. 61. 60.

Iria aproximar-se, ela diria "encontraste-me" e seria então, ali, que lhe daria o beijo. O beijo.

42. 41. 40. 39.

Só não queria que a chuva estragasse o jogo. Sem jogo não havia beijo. Sem beijo não haveria nada.

20. 19. 18. 17.

O seu coração batia cada vez mais depressa. Sabia que não era do jogo, sabia que era daqueles lábios que agora tinha de descobrir.

4. 3. 2. 1.

Aqui vou eu! gritou sorrindo. Porque todos os sapos merecem o seu beijo, mesmo que não se transformem.

 
∞∞∞ 
 
R:

Fechou a caixa, deitou um último olhar à secretária e saiu. Sabia que estava a chover, mas não queria levar nenhum dos chapéus-de-chuva que estavam na entrada. Noutro dia, tê-lo-ia feito. Hoje não: não queria ter de voltar para o devolver.

Sou disléxico, tinha-lhes dito desde o início. Pusera a vergonha de lado e revelara um dos seus maiores segredos. Não faz mal, tinham respondido. O que importa é a qualidade humana de cada um, reforçaram.

De que serve a qualidade humana agora? De que servem todos os sapos que engoliu? Todas as horas da sua vida que lhes tinha oferecido de bandeja? De nada.

Um pequeno erro, um número em vez de outro e o código não estava certo. Um pequeno desleixo e nem a qualidade humana o salvou.

 

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