Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#4) Relâmpago, bang, telemóvel

por Guilherme Fonseca, em 11.01.16

Photo 09-01-16, 10 05 45.jpg

 

 

R:

BANG! POW! CATCHINGA!

João – ou Super Trovão, como exigia ser chamado – passava tardes inteiras a combater o Mal com a ajuda de Relâmpago, o gato amarelo. Os pais estavam preocupados: já era altura de o rapaz se deixar daquelas coisas. Já tinha quinze anos e gastava os dias a perseguir vilões imaginários e a impedir catástrofes que só existiam na sua cabeça.

BANG! POW! CATCHINGA! Era isto a toda a hora.

Um dia, os pais decidiram levá-lo a um psicólogo. Ai Doutor, que ele acredita que é um super-herói e ai de quem o convença do contrário. E deitavam as mãos à cabeça: o que vai ser dele, que para o ano começa a escola secundária e o único amigo que tem é um gato vadio…

O médico pediu que chamassem o rapaz, não por João, mas pelo seu nome preferido.

Menino Super Trovão, é a sua vez.

Ele entrou. Conversaram durante horas. Mandaram entrar os pais.

Então, shôtor, não há cura, pois não? Temos o nosso menino perdido para sempre, não é?

O que é que preferiam? Que o vosso filho passasse os dias agarrado a um telemóvel como os outros adolescentes? O diagnóstico é simples: o vosso filho sofre de excesso de imaginação.

Ai, que horror, que isso parece grave, disse a mãe, já que o pai tinha só ficado de olhos muito abertos. E tem cura?

Tem. É deixá-lo viver.

 

∞∞∞

 

G:

Foi aquela chamada para a Carla. Puta da Carla. E foi o jogo de candy crush. BANG! Porque raio é que comecei a jogar aquela porcaria? BANG! E o scroll no Instagram. Horas e horas a ver fotos de outras gajas em bikini para quê?

BANG! – a porta começava a ranger. Quem me manda estar sempre agarrada ao telemóvel? BANG! A culpa é minha se chego a esta hora do dia sem bateria. A culpa é minha se agora não tenho maneira de ligar para a polícia, para quem quer que seja. BANG! BANG! – a porta soltou-se de uma das dobradiças.

Vou morrer. E a culpa é de quem faz a merda dos telemóveis terem pouca bateria. BANG! A culpa é do Instagram. BANG! Do candy crush. BANG! E da Carla. BANG! Puta da

(#3) Banana, livro, prato

por Rita da Nova, em 09.01.16

Photo 09-01-16, 10 05 08.jpg

 

 

G:

Outra vez discussão. Era assim todos os dias. A mãe dizia para ela comer e ela nada. Ficava agarrada aos livros. “Rita, come qualquer coisa. Assim ficas fraquinha” ao que a pequena e pespineta Rita dizia “eu não tenho fome. Estou a comer do livro.”

Outro dia, outra discussão e a mãe já não sabia o que fazer. A Rita não comia, só lia, a mãe gritava, a porta batia, fim de história. Mas naquele dia a mãe teve uma ideia. Não disse à Rita “anda comer” como nos outros todos. Perguntou-lhe “o que vais jantar?”. A pequena Rita, sem tirar os olhos do livro, disse apenas “banana, mamã”. A mãe aproximou-se e perguntou “ai, sim? De onde, da Madeira?” A Rita abriu um pouco mais as páginas do livro, trazendo a sua mãe para a história, e respondeu “Não. Bananas da terra do Jaime, o macaco saltitão”.

E assim ficaram as duas. Agarradas ao livro, a jantar da história.

 

∞∞∞

 

R:

És um banana, pensou, um grandessíssimo banana. Mulheres como ela não passam cartão a tipos como tu. Aceitou jantar por cortesia e entretanto deve ter tido qualquer coisa melhor para fazer. Pensa lá: tu também não irias preferir passar o serão a dobrar meias ou a fazer crochet, se te convidassem a jantar contigo?

Levantou-se enquanto engendrava uma desculpa para servir aos empregados do restaurante. Ela ficou retida no trabalho, está trânsito, está indisposta. Sentiu uma mão tocar-lhe nas costas: ela tinha vindo e, incrivelmente, tinha trazido um sorriso.

Um sorriso e não só: antes de se sentar estendeu-lhe um livro.

Desculpa o atraso, mas vi isto na montra de uma livraria e não resisti.

(#2) Mão/luva, pasta, ponto de interrogação

por Guilherme Fonseca, em 07.01.16

 

dados-2.jpg

 

R:

Francisco vivia fascinado com aquele homem. Fazia-lhe lembrar a girafa que tinha visto no Jardim Zoológico: muito alto, pescoço longo, de andar cuidadoso, quase como se os pés examinassem o mundo antes de decidirem avançar. Trazia sempre uma mala de couro na mão esquerda e uma luva apenas na mão direita.

Um dia, o rapaz encheu-se de coragem:

Posso fazer-lhe uma pergunta?

Já não fizeste?

Porque é que traz só uma luva? Não tem frio na outra mão?

E quem te diz que a outra mão é verdadeira?

 

∞∞∞

 

G:

37 anos. 37 anos de carreira - 9 deles de estudo - que iam pelo cano abaixo. Tinha acabado de cometer um disparate enorme mas como médico sabia que às vezes é um disparate que salva uma vida. Uma vida mas não uma carreira. Essa ia acabar. O director do Hospital estava parado à sua frente, ele, uma luva e um ultimato. “Então? Operaste ou não operaste sem a outra luva? Tu sabes que isso é contra as regras do hospital!”. Sim, tinha operado só com uma luva mas ninguém sabia. Só a enfermeira que o acompanhou na cirurgia, e que no final lhe deu a pasta dizendo “não se preocupe”.

Sem resposta o director do hospital era forçado a investigar. Empurrou-o para dentro da sala de cirurgia e disse “ou está uma luva aqui dentro ou podes ir lavar carros”. 37 anos de carreira que iam desaparecer ali, naquele instante. E por alguma razão, não lhe saia a frase da enfermeira da cabeça. “Não se preocupe”. Não me preocupo porquê?

O director remexia no lixo gritando “estás feito!” quando lhe respondeu “não se curve que isso dá-lhe cabo das costas, sr director”. O director ergueu a cabeça e viu o médico com outra luva na mão. “Tem de começar a confiar mais na sua equipa. A mim ajuda-me imenso”.

(#1) Gato, avião, café

por Rita da Nova, em 05.01.16

 

gato-aviao-cafe

 

G:

- Apetece-te Brunch?

- Sim.

- Posso escolher eu?

- Claro.

- Então vamos a Viena.

- És doido.

- Não. – disse ele mostrando um par de bilhetes.

E de repente, num passo de magia entre a cama dele e um avião, estavam

a caminho de Viena. Não em férias, não em trabalho, não em passeio. Em

pequeno almoço. Chegaram, comeram, passearam e quando descobriram o

hotel ela disse:

- Adorei, sabias?

Ele beijou-a e disse - ...mas?

- ...mas acho que não deixei comida à minha gata.

- Não faz mal. – respondeu abrindo a porta do quarto.

Tinham todos ido tomar o pequeno almoço a Viena.

 

∞∞∞

 

 

R:

Juliano estava irritado. Os irmãos podiam ter ficado com o raio do gato, mas não, para não variar ia sempre tudo parar em cima dele. Tinha sido um horror meter o bicho na caixa, tratar da papelada, das vacinas e conseguir espaço para ele no avião, junto da bagagem. Ninguém tinha culpa da morte da mãe, é certo, mas ao menos podiam ter tido a decência de poupar o animal.

Vai querer alguma coisa para beber?, perguntou a hospedeira.

Whisky, pensou, mas depois lembrou-se que ainda não eram 11h da manhã e pediu um café.

A rapariga encheu um copo de papel e, no momento em que lho entregava, o avião foi atingido por uma turbulência inesperada. O copo escapou-se-lhe das mãos e o café caiu no colo de Juliano. Como sempre, ia tudo parar em cima dele.

 

Pág. 2/2

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D