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Dados que contam histórias

Dados que contam histórias

(#20) Livro, coração, ADN

por Guilherme Fonseca, em 12.02.16

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R:

Mais maçador do que eu me lembrava, desabafou Irene quando fechou o livro e o pousou no colo. Tinha chegado a uma altura em que tinha de os repetir e talvez por isso lhe parecessem sempre mais maçadores do que da primeira vez. Como já lhes conhecia o fim, o caminho até lá soava-lhe aborrecido e desnecessário.

É para aprenderes que o sangue não prende as pessoas. Se prendesse, ao menos traziam-te livros novos com que te entreteres. Mesmo que não tivessem vida ou tempo para te visitar com frequência e fazer-te companhia. Pelo menos traziam palavras. Mas nem isso. É bem feita, Irene. É para aprenderes que lá porque partilhas com eles o ADN, não significa que lhes estejas no coração. 

 
∞∞∞
 
G:

O velhote levantou-se. “Eu acho que devíamos ter um livro de presenças”. Toda a gente suspirou. A rapariga sorriu de forma condescendente e só respondeu “Sr Fernando, como lhe disse a semana passada, não sentimos essa necessidade. Mas se faz tanta questão, força. Não queremos que lhe dê nada de coração.” Toda a gente se riu. O sr Fernando não.

Tinha finalmente o que queria, ia tratar disso. Pegou numa folha e numa caneta e começou a percorrer toda a gente naquela sala. Queria que ela fosse a última para não suspeitar de nada. Se ela fosse quem ele achava que ela era, seria esperta e iria perceber.

Ele conseguiu todos os nomes antes de lhe estender a folha. “És tu”. Ela sorriu, pegou na caneta e escreveu o seu nome completo. Ele rodou a folha e leu o que ela tinha escrito. Tinha razão. Ela era mesmo. “Satisfeito, Sr Fernando?” Ele respondeu, orgulhoso e pela primeira vez, “Muito, minha filha” antes de se voltar a sentar.

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